Elaborado pelo Ipea, estudo não confirma que país precisa de mais engenheiros, enquanto o crescimento não passar de 5% ao ano
O atual ritmo de formação de engenheiros no Brasil é suficiente para suprir a demanda por profissionais dessa área se o ritmo de crescimento da economia nacional também se mantiver nos patamares de hoje e não ultrapassar os 5% ao ano, considerando o período 2009-2022.
O equilíbrio entre a demanda e a oferta de engenheiros é potencialmente frágil e um maior crescimento econômico poderá gerar um déficit de engenheiros, aponta o estudo “Escassez de engenheiros: realmente um risco?”, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no número 6 da publicação Radar. Se o PIB crescer 5% ao ano ou mais até 2022, a formação de profissionais, nas taxas atuais será insuficiente para atender o mercado, mostra o estudo.
No estudo, de seis páginas, os técnicos do Ipea afirmam, com base em dados do Censo populacional e do Ministério da Educação (MEC), que existiam 750 mil engenheiros disponíveis no mercado de trabalho; e 211,7 mil empregos formais em ocupações típicas das engenharias em 2008.
Esse primeiro estudo sobre o assunto não leva em conta a qualidade dos profissionais formados pelas escolas de engenharia no país. Assim, para cada dois graduados em engenharia trabalhando em ocupações típicas da sua formação com carteira assinada, outros cinco formados na área trabalham em outras ocupações, estão desempregados, não são assalariados, emigraram ou estão fora do mercado de trabalho, explicou a Inovação o técnico de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos Setoriais do Ipea, Paulo Mayer Nascimento, um dos autores do estudo.
Na apresentação feita no lançamento do Radar 6, no Ipea, em Brasília, Divonzir Arthur Gusso, outro técnico de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos Setoriais do instituto e também autor da pesquisa, explicou os números encontrados pelo grupo de pesquisa que analisou a formação de engenheiros no país.
Além de Nascimento e Gusso, assinam o artigo Aguinaldo Maciente, Thiago Araújo e Alex Pena Tosta da Silva. Os pesquisadores consideraram a formação de engenheiros, arquitetos e afins, classificadas na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), fornecida pelo Ministério do Trabalho.
Eles calcularam a demanda por engenheiros em diferentes cenários econômicos, projetaram as taxas atuais de formação de engenheiros e cruzaram esses números com a relação de quantos graduados em engenharia trabalham, de fato, em áreas dentro da sua formação.
Crescimento do PIB e necessidade de engenheiros
Do lado da procura, as projeções dos técnicos mostram que, caso a economia cresça 3% ao ano, o Brasil precisará de mais 60 mil engenheiros até 2012 e mais 220 mil até 2022 em relação a 2008. Para um crescimento de 5% ao ano, entre 2009 e 2012 o país precisará de mais 85 mil engenheiros; entre 2013 e 2015, mais 90 mil, e entre 2016 e 2022, mais 320 mil.
No total, entre 2009 e 2022, o estudo calculou que, para atender à demanda de 5% de crescimento ao ano, a economia usará 708 mil engenheiros. Para 7% ao ano, entre 2009 e 2012 a demanda chegaria a 130 mil engenheiros; entre 2013 e 2015, a 150 mil; e entre 2016 e 2022, a 650 mil, totalizando 1,135 milhão de novos engenheiros formados entre 2009 e 2022.
Do lado da oferta, as projeções do Ipea indicam que entre 2009 e 2012 o país terá 220 mil mais engenheiros formados. Entre 2013 e 2015, mais 195 mil; e entre 2016 e 2022, mais 560 mil, se mantido o nível atual das taxas de formação observadas pelos técnicos do instituto. Ou seja, em 2022, o Brasil terá 1,6 milhão de graduados em cursos de engenharia.
A se manter essa taxa, o país terá profissionais em número suficiente para taxas de crescimento entre 3% e 5% ao ano, mas não mais que isso, alertou o pesquisador na apresentação. Isso porque é preciso considerar que nem todos os formados em engenharia vão trabalhar, de fato, em atividades típicas da carreira. Se for considerada a média de dois graduados trabalhando na área e cinco atuando em outras áreas, ou fora do mercado, ou no exterior, o 1,6 milhão de graduados não será suficiente para atender à necessidade gerada por um crescimento do PIB superior a 5% ao ano.
“Nós fizemos simplificações. Supusemos diferentes cenários, mas trabalhamos com a perspectiva de que a forma de organização da economia seja parecida com a de hoje nos cenários futuros”, explica Paulo Nascimento. Ele lembra que se o cenário mudar e a economia brasileira se tornar mais intensiva em conhecimento e tecnologia, por exemplo, a necessidade de engenheiros também muda.
“Não pudemos, por exemplo, trabalhar com a questão da exploração do petróleo no pré-sal. Não incorporamos nesse estudo as mudanças que possam levar nossa economia a desenvolver setores mais avançados e que demandam mais inovação”, acrescenta.
O setor produtivo tem manifestado constantemente a preocupação com a formação de engenheiros. A SAE Brasil, associação de engenheiros da indústria da mobilidade – que, além do automobilístico, engloba os setores aeronáutico, ferroviário, rodoviário, etc. – criou um curso de mestrado, em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Unicamp, para dar conta da formação dos profissionais de que precisam os setores que representa.
A Embraer mantém uma parceria com o ITA há sete anos para oferecer a engenheiros recém-formados um curso de mestrado profissionalizante na área de engenharia aeronáutica, forma que a empresa encontrou de obter os profissionais com o perfil de que precisa.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) criou em maio de 2006 um programa de modernização da engenharia no Brasil, o Inova Engenharia, para mobilizar academia, poder público e empresas em torno do assunto. O programa é coordenado pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).
Mas se estamos formando engenheiros em número suficiente, por que os empresários expressam preocupação e alertam para a falta desses profissionais no mercado? “É bem possível que falte engenheiros em áreas mais especializadas. Nesse primeiro estudo que fizemos fomos mais generalistas, tratamos da engenharia, da arquitetura e afins, seguindo a classificação da Rais, do Ministério do Trabalho. Não olhamos os principais setores da nossa economia para saber de quais engenheiros precisam, mas isso não invalida nosso trabalho”, responde Nascimento.
“A questão agora é saber para quais especialidades de engenheiros há mais demanda, e não simplesmente falar em formar engenheiros de maneira geral”, prossegue. Os estudos relacionados ao assunto vão continuar no Ipea e as análises por setores deverão ser um dos temas dentro do assunto maior que é a formação de engenheiros.
Outra preocupação dos empresários comumente manifestada é a qualidade dos engenheiros formados no país. Os novos estudos do Ipea relacionados à formação dos engenheiros no Brasil devem trabalhar com esse aspecto.
“Estamos estudando a melhor forma de dar peso à questão da qualidade. Precisamos identificar algum tipo de indicador, algum tipo de aproximação relacionada ao assunto”, afirma Nascimento. Uma possível variável a ser considerada pelos técnicos do Ipea são as avaliações do MEC relacionadas aos cursos de graduação, cruzando-se o número de engenheiros formados pelas instituições avaliadas pelo ministério.
(Janaina Simões, do Inovação Unicamp, 22/3)
Fonte: Jornal da Ciência