O jornalismo científico e as duas culturas

Postado por João Paulo Em 7 de February de 2010

Escrito por Maurício Tuffani, na revista Unesp Ciência, primeira edição de 2010.

“Eis por que, tão logo a idade me permitiu sair da sujeição de meus preceptores, deixei
inteiramente o estudo das letras. (…) Pois afigurava-se-me poder encontrar muito mais
verdades nos raciocínios que cada qual efetua no respeitante aos negócios que lhe importam,
e cujo desfecho, se julgou mal, deve puni-lo logo em seguida, do que naqueles que um
homem de letras faz em seu gabinete, sobre especulações que não produzem efeito algum.”
Descartes, Discurso do método[1]

O pensamento moderno teve como uma de suas principais linhasmestras, já em sua origem no século 16, o preceito de que o verdadeiro conhecimento é o da natureza. Tanto no racionalismo, inaugurado por René Descartes (1596-1650), como no empirismo, que tem como um dos fundadores John Locke (1632-1704), a scientia contemplativa da Antiguidade e da Idade Média cedeu lugar para a scientia activa. Cada vez mais, conhecer passou a ser saber para transformar, para subjugar a natureza. Todo o conhecimento do passado e também o das “inúteis humanidades” começou a ser desprestigiado, nos termos do Discurso do método. Nesse novo paradigma, como já pregara Galileu Galilei (1564-1642), a matematização tornou-se uma das principais bases do método científico.
Desse modo, surgiu no plano do conhecimento o antagonismo que caminhou ao longo dos séculos seguintes para aquilo a que o escritor britânico Charles Percy Snow (1905-1980) se referiu, em uma famosa conferência de 1959 na Universidade de Cambridge. Convertida em livro, sua apresentação destacou o hiato entre “as duas culturas”, ou seja, o abismo existente entre, de um lado, as artes e humanidades, e, de outro, as ciências naturais e exatas e a tecnologia.

Esse abismo também está presente na cobertura jornalística da ciência. Inclusive no Brasil, onde pode ser confirmado a partir de um estudo recente, realizado pela Fundação para o Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), vinculada à Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com a Agência Nacional de Direitos da Infância (Andi)2. A pesquisa baseou-se nas matérias sobre ciência publicadas durante 2007 e 2008 por 62 jornais diários brasileiros, descartados os textos com menos de 500 caracteres.
Nas 2.599 reportagens, colunas, artigos, editoriais e entrevistas selecionadas e analisadas – 1.394 de 2007 e 1.205 de 2008 –, houve maior ocorrência de temas das Ciências Biológicas e da Saúde (55,4% em média nos dois anos), seguidas pelas Exatas, da Terra e Engenharias (21,3%) e pelas Ciências Humanas e Artes (18,9%)3.
O chamado hiato entre as duas culturas não está apenas na última classificação desse pódio – afinal, foi pequena a distância entre a segunda e a terceira classificações –, mas na falta de contextualização ou de uma abordagem com um mínimo de interdisciplinaridade de grande parte das matérias selecionadas. Isso se reflete, por exemplo, no dado de que apenas 15,7% desses textos fazem alguma contextualização histórica dos temas abordados, assim como no fato de que somente em 12,3% das matérias há menção a questões éticas. Não se trata aqui de pregar por regras de interdisciplinaridade e de contextualização para a cobertura jornalística de ciência, as quais teriam como consequência inevitável o patrulhamento ideológico. Mas, se os jornalistas e veículos que atuam nessa área pretendem conservar um mínimo do que ainda resta da sua função original de mediação nestes tempos em que a informação se confunde cada vez mais com o entretenimento, uma dose razoável de preocupação com o abismo entre as duas culturas certamente cairá bem.


1 Os Pensadores, Abril Cultural, 1973, vol. XV, p. 41
Ciência, Tecnologia e Inovação na Mídia Brasileira.
2 Disponível em http://www.andi.org.br/_pdfs/
paper_c&t_midia.pdf
3 4,4% das matérias foram consideradas
interdisciplinares.
pensamento moderno teve como
uma de suas principais linhasmestras,
já em sua origem no
século 16, o preceito de que o verdadeiro
conhecimento é o da natureza. Tanto no
racionalismo, inaugurado por René Descartes
(1596-1650), como no empirismo, que
tem como um dos fundadores John Locke
(1632-1704), a scientia contemplativa da
Antiguidade e da Idade Média cedeu lugar
para a scientia activa. Cada vez mais,
conhecer passou a ser saber para transformar,
para subjugar a natureza. Todo o
conhecimento do passado e também o
das “inúteis humanidades” começou a ser
desprestigiado, nos termos do Discurso do
método. Nesse novo paradigma, como já
pregara Galileu Galilei (1564-1642), a matematização
tornou-se uma das principais
bases do método científico.
Desse modo, surgiu no plano do conhecimento
o antagonismo que caminhou ao
longo dos séculos seguintes para aquilo
a que o escritor britânico Charles Percy
Snow (1905-1980) se referiu, em uma famosa
conferência de 1959 na Universidade
de Cambridge. Convertida em livro, sua
apresentação destacou o hiato entre “as
duas culturas”, ou seja, o abismo existente
entre, de um lado, as artes e humanidades,
e, de outro, as ciências naturais e exatas
e a tecnologia.
Esse abismo também está presente na
cobertura jornalística da ciência. Inclusive
no Brasil, onde pode ser confirmado
a partir de um estudo recente, realizado
pela Fundação para o Desenvolvimento da
Pesquisa (Fundep), vinculada à Universidade
Federal de Minas Gerais, em parceria
com a Agência Nacional de Direitos da
Infância (Andi)2. A pesquisa baseou-se nas
matérias sobre ciência publicadas durante
pelas Ciências Humanas e Artes (18,9%)3.
O chamado hiato entre as duas culturas
não está apenas na última classificação desse
pódio – afinal, foi pequena a distância
entre a segunda e a terceira classificações
–, mas na falta de contextualização ou de
uma abordagem com um mínimo de interdisciplinaridade
de grande parte das
matérias selecionadas. Isso se reflete, por
exemplo, no dado de que apenas 15,7%
desses textos fazem alguma contextualização
histórica dos temas abordados, assim
como no fato de que somente em 12,3%
das matérias há menção a questões éticas.
Não se trata aqui de pregar por regras de
interdisciplinaridade e de contextualização
para a cobertura jornalística de ciência, as
quais teriam como consequência inevitável
o patrulhamento ideológico. Mas, se
os jornalistas e veículos que atuam nessa
área pretendem conservar um mínimo do
que ainda resta da sua função original de
mediação nestes tempos em que a informação
se confunde cada vez mais com
o entretenimento, uma dose razoável de
preocupação com o abismo entre as duas
culturas certamente cairá bem.
2007 e 2008 por 62 jornais diários brasileiros,
descartados os textos com menos
de 500 caracteres.
Nas 2.599 reportagens, colunas, artigos,
editoriais e entrevistas selecionadas
e analisadas – 1.394 de 2007 e 1.205 de
2008 –, houve maior ocorrência de temas
das Ciências Biológicas e da Saúde (55,4%
em média nos dois anos), seguidas pelas
Exatas, da Terra e Engenharias (21,3%) e
ponto
crítico
Faltam contextualização
e um mínimo de
interdisciplinaridade em
muitas reportagens
O jornalismo científico
e as duas culturas
Maurício Tuffani
unespciência 50 .:. fevereiro de 2010
“Eis por que, tão logo a idade me permitiu sair da sujeição de meus preceptores, deixei
inteiramente o estudo das letras. (…) Pois afigurava-se-me poder encontrar muito mais
verdades nos raciocínios que cada qual efetua no respeitante aos negócios que lhe importam,
e cujo desfecho, se julgou mal, deve puni-lo logo em seguida, do que naqueles que um
homem de letras faz em seu gabinete, sobre especulações que não produzem efeito algum.”
Descartes, Discurso do método1
1 Os Pensadores, Abril Cultural, 1973, vol. XV, p. 41
Ciência, Tecnologia e Inovação na Mídia Brasileira.
2 Disponível em http://www.andi.org.br/_pdfs/
paper_c&t_midia.pdf
3 4,4% das matérias foram consideradas
interdisciplinares.

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Ciência e Tecnologia: duas palavras que me encantam desde pequeno. A melhor coisa que tem é você fazer o que gosta, e hoje estou na Engenharia Mecânica, na Faculdade de Engenharia de Bauru, UNESP. Pesquisas científicas e desenvolvimento de projetos são meus objetivos. Abaixo, meu currículo Lattes:
http://lattes.cnpq.br/1198397415430883

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